[cabra] Literatura cheeseburger

23 de setembro de 2014 - terça-feira - 11:07h   ¤   Categoria(s): Cabra

Literatura cheeseburgerSeja lá qual for o conceito de “literatura de qualidade”, a discussão extremista sobre esse assunto é antiga, cansativa e não leva a lugar nenhum. Tá bom. Leva… a amizades desfeitas, a bafafás nas redes sociais ou, no mínimo, a um monte de unfollows.

Eu sou o tipo de leitora que adora um clássico da literatura e que também lê um erótico ou uma história teen sem problema nenhum. Para mim, um livro tem que: ou me entreter ou me fornecer conhecimento ou ambos. A única coisa que rejeito, mesmo, de verdade, é livro chato e inútil.

Esses dias, dei de cara com um vídeo no youtube cujo título é “Stephen King On Twilight, 50 Shades of Grey, Lovecraft & More”. É uma palestra que o Stephen King deu em uma Master Class na University of Massachusetts Lowell, em 2012. Assisti a uma parte do vídeo, ainda não terminei de ver. Entretanto, o que me chamou a atenção, na realidade, foi um comentário e um reply de um perfil chamado Harley Quinn. Não vou colar os textos aqui porque são um pouquinho longos (para o padrão de comentário), mas é fácil de achá-los na própria página do vídeo.
Eu resolvi escrever este Cabra porque encontrei nesses comentários as palavras que finalmente conseguiram traduzir o que eu sinto (mas nem sabia que sentia) em relação à discussão sobre “literatura de qualidade”. E, logicamente, não podia deixar de dividir essa reflexão com vocês.

Baseando-me nos tais comentários, eu queria trazer aqui o que eu chamarei de “literatura cheeseburger”.

Cheeseburger é o tipo de comida que adoramos comer, não importa a idade que temos. É delicioso, suculento, satisfaz e nos deixa feliz. E não é só o fato de encher a pança. A diversão faz parte também! Mas, infelizmente, ele não é perfeito. Um dos seus problemas é o fato de não ser das melhores opções em termos de nutrição.

Quando nós somos mais jovens, costumamos comer cheeseburger com uma frequência maior. Com o tempo, a idade vai chegando, hahaha, e a gente passa a entender que… well… existem outros alimentos com valores nutricionais melhores, que vão nos fazer bem e ajudar a ter saúde. Alguns são até bem gostosos, rs. Então, a gente passa a comer mais brócolis, tomate, cenoura, etc.

No entanto, não é porque estamos mais conscientes da nossa alimentação que devemos nos privar de um cheeseburger de vez em quando. É uma delícia, é divertido! Não faz sentido ser estritamente proibido nem demonizado.

Eu acho que deu pra entender o que quero dizer com “literatura cheeseburger”, né? ^_^

Com relação ao hábito de leitura, é muito comum as pessoas começarem de pontos de partida diferentes, seja em termos de idade ou de tipo de livro. Tem gente que começou bem criancinha, com livrões cheios de figuras e letras grandes. Há quem tenha começado aos 10, 11, 14 anos de idade, com Harry Potter. Tem mulher adulta que começou com Cinquenta Tons. Isso não importa. Para tudo na vida, começamos de um começo, certo?

E, assim como tudo na vida, na minha opinião, acho realmente importante não deixar de lado o processo de evolução e amadurecimento constante. Aos poucos, vamos deixando de comer coxinha e pastel todos os dias, vamos aprendendo que não é legal encher a cara até cair em uma balada todo fim de semana quando se tem 40 anos de idade mesmo sendo solteiro, vamos entendendo que é bem provável que o homem perfeito das comédias românticas não exista.
Mas a vida também não tem que ser feita de brócolis, cenoura e tomate 7 dias por semana, 365 dias por ano. Não tem que ser feita só de jantares de negócios. Nem tem que ser feita apenas de homens entediantes.
Um cheeseburger de tempos em tempos NÃO FAZ MAL NENHUM!

Jamais, jamais, jamais deixe de consumir seus livros cheeseburger! Apenas dê a si mesmo a chance de experimentar novos tipos de leitura. Também não precisa ter pressa. Toda evolução é feita de degraus. Finnegans Wake, para muita gente (including me), ainda é um livro chato e inútil, pois não estamos preparados para entendê-lo e aproveitar o que ele tem a oferecer. Suba cada um desses degraus. Aos poucos, devagar. Mas sempre. =)

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O link do vídeo citado no começo do texto é esse.
 

Morte da cabrita A seção “Cabra” é um nome curto para o que deveria se chamar “Morte da Cabrita”, onde coloco os textos resultantes das minhas reflexões profundas (ahan!) acerca de assuntos que envolvem o mundo literário, principalmente a grande delícia que é ser um leitor. A intenção jamais será ter a palavra final sobre o tópico abordado, e sim gerar discussões e novas reflexões. Post explicativo aqui.

Veja também:

    3 comentários para “[cabra] Literatura cheeseburger

  1. Então, né. Eu estudo Letras na USP, mas entrei lá mais por causa do japonês e da possibilidade de ir para o Japão como bolsista, mais um tiquinho por curtir uma gramática e uma morfologia legais. Mas literatura nunca me apeteceu muito. Só que eu tenho que estudar, faz parte do curso e com uma carga horária pesada. Então, mesmo a certo contragosto, eu acabei aprendendo que qualidade literária se divide de muitos modos. O que se faz hoje é mais usado para discriminar o outro / enaltecer-se do que qualquer outra coisa. O Senhor dos Anéis, por exemplo, é uma obra muitíssimo bem conceituada e que está anos luz à frente de muitos livros de autoajuda ou volumes da Sabrina que se vendem em bancas de jornal para muita gente. Alguns dos meus professores de literatura, no entanto, são capazes de falar com o mesmo desprezo dos dois (LOL).

    Ou seja, pode-se separar as obras em níveis de qualidade pela complexidade das construções gramaticais, a riqueza de vocabulário e o nível de “elevação” do conteúdo da obra, ou seja, o quanto ela se afasta do mundando, cotidiano, trivial ou “pedestre” (LOL) como gostava de falar um professor meu.

    Mas acho que o critério mais levado em conta pelos acadêmicos de literatura é o quanto uma obra carrega do contexto histórico, político e social dentro qual foi produzida. O que acaba caindo em obras antigas, os clássicos consagrados, que o são justamente por suscitarem debate e oferecerem material intelectual para discussão de questões sociais e políticas até hoje. Os romances contemporâneos, que apelam à identificação com inquietações e desejos íntimos das pessoas, acabam ficando de fora. Isso é meio que considerado “baixo”, “menor”. E acho até natural que um literato pense assim, porque um intelectual sempre vai estar mais interessado naquilo que provoque a reflexão sobre coisas mais universais, abrangentes, que fale sobre a alma secular da raça humana e não sobre o coração de um indivíduo.

    Eu, como indivíduo que nem pensa em seguir carreira acadêmica na área literária, mas que se acabar parando nesse meio não quer se tornar esse tipo de intelectual, acho que até há sim, literatura baixa, simplória e que não acrescenta nada a quem lê. Mas isso não é motivo para se condenar quem goste desse tipo de leitura.

    Aliás, não é recomendável condenar nenhum hábito de leitura, apesar de ser tão fácil de fazer. Fala-se muito em incentivar leitura, mas isso só é grande b*sta. Pode-se ler tanto a Sabrina quanto Tolkien só pelo prazer do contato com um tipo de história que apela e desejos íntimos e inclinações estéticas suas. O que constitui mera obtenção de prazer e não contribui para o desenvolvimento intelectual de ninguém. Mas pode ser que alguém lendo a Sabrina passe a refletir muito mais sobre relações interpessoais, papel de gênero e instituições sociais (como o casamento) e problematizar essas coisas. Assim como o leitor do Tolkien pode partir da leitura do Senhor dos Anéis para uma reflexão sobre poder, religião, conflitos étnicos, higienismo racial e etc. Enfim, acho que mais vale ler pouco e refletir a respeito, trocando ideias com outras pessoas, num âmbito que ultrapasse os limites da obra lida e que dialogue com o ambiente social e/ou político do leitor do que ler muito mas por mera obtenção de prazer ou acúmulo estéril de informações no cérebro.

    Bom, ainda tô com a impressão de que eu tinha alguma coisa mais para dizer, mas não tá saindo. Espero que meu comentário tenha saído inteligível com sentido, porque estou escrevendo bêbado de sono e a cada dez linhas escritas eu já esquecia o que tinha escrito dez linhas atrás XD

    Beijo!

  2. Sayaka disse:

    Aaaah, Stephen King…. Love love love rs.

    Chega de ficar suspirando, bora pro assunto em pauta rs.

    Admiro muito quem consegue ter um gosto tão eclético pra leitura. Tipo você. Olha, eu te admiro!! XD

    Falando sério agora (ai como isso é difícil rs), não sei se meu gosto é só em cheeseburger ainda, nunca parei pra avaliar isso. Mas… toda leitura, quando te faz bem, não é divertida e, consequentemente, não acaba sendo um cheeseburger ultra suculento e gordurento?

    Mesmo aquelas leituras tipo Nietzsche. Quem gosta, deve considera-lo um imenso cheeseburger, não? Eu sei que EU ainda não consigo ler isso, mas admiro profundamente quem gosta.

    Sério mesmo que existe polêmica sobre essa história de leitura de qualidade? Tô bad XD. Não sei pq. Por mais que, pra uns, um Cinquenta Tons seja totalmente descartável, pra outros, é uma leitura super gostosa (em todos os sentidos XD). Gosto é gosto, ninguém é obrigado a gostar do que o outro gosta. O importante não é o fato de ler alguma coisa, não importa o que?

    Tá certo que eu fico chocada com adolescentes curtindo literatura erótica, mas… bom.. pelo menos começaram a ler alguma coisa rs.

    Ai, que coisa. Bom, eu sempre vou experimentar coisas que me aticem a curiosidade. Não sei se vou chegar ao ponto de ler um Nietzsche (pq nunca tive curiosidade rs), mas, quem sabe? E, quem sabe, ele não se torne um cheeseburger pra mim?

    Será que viajei um pouco? Pode ser, pode ter passado um pelicano (chamado Kia) que me fez perder o fio da meada, mas taí minha opinião rs.

    Bjus!

  3. Ah Lia, concordo com você em praticamente tudo.
    Enquanto as pessoas perdem tempo discutindo o “melhor tipo de livro”, deveriam ler os seus livros favoritos. É um assunto que sempre surge e que nunca vou entender a polêmica pelo simples fato de não ter sentido pra mim.

    Beijo
    Fê – Leitora Incomum

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