Categoria: ‘Ficção Científica’

[resenha] Realidades Adaptadas

18 de fevereiro de 2015 - quarta-feira - 10:52h   ¤   Categoria(s): Crônicas/Contos, Ficção Científica, Literatura estrangeira, Resenhas

Realidades AdaptadasTítulo: Realidades Adaptadas
Autor: Philip K. Dick
País: EUA
Editora: Aleph
Páginas: 302
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Com certeza deve saber que a Pré-Crime reduziu 99,8% dos crimes graves. Raramente temos assassinatos ou traições reais. Afinal, o culpado sabe que será confinado no campo de detenção uma semana antes de ter a chance de cometer o crime.

Preciso confessar uma coisa pra vocês: eu nunca tinha ouvido falar de Philip K. Dick até mais ou menos 1 ano atrás. Ééé! A pessoa se formou em Engenharia, tem uma boa carga de nerdice, diz-se ui-nossa devoradora de livros, curte ficção científica, mas não tinha ouvido falar de Philip K. Dick!!!! O que faz com um ser desses? Manda ir beber água de privada, né!
Você que não é nerd está perdoado. Você pode não conhecer o nome desse autor, mas com certeza até conhece histórias dele. Os filmes Minority Report e Vingador do Futuro são algumas adaptações para o cinema baseadas nos contos de Philip K. Dick.
Realidades adaptadas é justamente uma coletânea dos contos que foram parar na telona. O livro traz 7 histórias, que serviram de inspiração para os seguintes filmes:
- O Vingador do Futuro
- Screamers – Assassinos Cibernéticos
- Impostor
- Minority Report – A Nova Lei
- O Pagamento
- O Vidente
- Os Agentes do Destino

Uma coisa que eu gosto sempre de repetir quando escrevo alguma resenha sobre distopia ou ficção científica é que o que me atrai em histórias desse tipo é o aspecto humano, social, psicológico e filosófico do futuro imaginado. Naves interplanetárias ou cidades em ruínas, para mim, são apenas cenários de fundo que justificam algo muito mais complexo e que envolve aqueles que neles vivem. O próprio Philip K. Dick comentou que suas obras giravam em torno de dois questionamentos: o que é a realidade e o que constitui um ser humano.

Abaixo, tentei escrever um resumo mais curto possível de cada um dos contos, usando o nome original deles, mas na mesma ordem da lista acima.

Em Lembramos para você a preço de atacado, Douglas Quail gostaria muito de ir a Marte, mas, sendo um assalariado, não tem dinheiro para realizar seu sonho. Seu orçamento é somente capaz de arcar com a compra de uma lembrança. Assim, resta-lhe apenas recorrer a uma empresa que implanta memórias no cérebro de pessoas.
Segunda variedade é um conto que aborda a questão da definição de um ser humano. No futuro, androides tão perfeitos serão capazes de enganar quem realmente é humano? Mas o que define o que é ser um humano?
Em O impostor, Spence Olham é acusado por um colega de trabalho de ser um androide que está tentando sabotar as defesas do planeta Terra contra ataques alienígenas. Plenamente consciente de quem ele é, Olham tenta provar a sua humanidade.
O relatório minoritário aborda a velha questão do livre arbítrio. Em época em que os crimes serão previstos e, por esse motivo, impedidos, John Anderton descobre que vai cometer um assassinato. O problema é: Anderton é o fundador e chefe da Divisão Pré-Crime que, justamente, tem como objetivo prender os futuros criminosos. Mas ele sabe que não vai cometer nenhum assassinato. Ou será que vai?
Em O pagamento, Jennings de repente acorda quando está sendo levado a uma das sedes da empresa, para receber o pagamento pelo serviço prestado. Dois anos se passaram desde sua última lembrança. Ele sabe que foi contratado para um trabalho, mas não se recorda de nada do que fez durante esse período. Na sede, Jennings descobre que assinou um contrato em que concordou trocar o pagamento em dinheiro por alguns objetos aparentemente insignificantes. Os acontecimentos posteriores acabarão por responder a razão de tal escolha.
O homem dourado se passa em um futuro em que os mutantes existem, mas não são necessariamente livres para viver em sociedade. Cris é um deles. Nascido em uma família comum, Cris não fala, mas é bonito e tem um belo corpo… e é inteiro dourado, inclusive seus cabelos. Além disso, Cris tem a habilidade de prever os acontecimentos cerca de 2 minutos antes.
Equipe de ajuste conta a história de uma entidade, teoricamente invisível ao mundo, responsável por garantir que os fatos aconteçam conforme o planejado. Trata-se de uma equipe, composta por pessoas e até por animais, que precisa realizar suas tarefas de maneira perfeitamente sincronizada para cumprir seus objetivos. Até que, um dia, um dos membros do grupo falha no seu timing. Nesse dia, Ed Spencer, que devia ter um dia absolutamente normal, acaba encontrando esta equipe no escritório onde trabalha.

Eu achei que Realidades adaptadas foi um ótimo jeito de me iniciar ao Philip K. Dick. Quero muito ler outras obras dele!
Recomendo essa coletânea principalmente aos amantes de cinema, de ficção científica e àqueles que, como eu, nunca tinham ouvido falar do autor.
Realidades Adaptadas

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[resenha] A Corte do Ar

4 de dezembro de 2014 - quinta-feira - 09:35h   ¤   Categoria(s): Aventura / Fantasia, Ficção Científica, Literatura estrangeira, Resenhas

Título: A Corte do Ar
Título original: The Court of the Air
Autor: Stephen Hunt
País: Inglaterra
Ano: 2007
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 540
Sinopse: Quando a orfã Molly Templar testemunha um assassinato brutal no bordel onde foi colocada como aprendiz, seu primeiro instinto é correr de volta para o orfanato em que cresceu. Ao chegar lá e encontrar todos os seus amigos mortos, percebe que ela era o verdadeiro alvo, pois seu sangue contém um segredo muito cobiçado pelos inimigos do Estado. Enquanto isso, Oliver Brooks é acusado pela morte do tio, seu único familiar, e forçado a fugir na companhia de um misterioso agente da ‘Corte do Ar’. Perseguido pelo país, Oliver se vê cercado de ladrões, foras da lei e espiões, e pouco a pouco desvenda o segredo que destruiu sua vida. Molly e Oliver serão confrontados por um poder antigo que se julgava destruído há milênios e que agora ameaça a própria civilização. Seus inimigos são implacáveis e numerosos, mas os dois órfãos terão a ajuda de um formidável grupo de amigos nesta aventura cheia de ação, drama e intriga.
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Um sopro ruidoso vindo do sul e a descida de um quarteto de motores de expansão silenciou o burburinho da multidão à espera do dirigível: o aeróstato surgiu da floresta localizada logo atrás do campo de aterrissagem com a metade mais alta do seu casco pintada de verde e a mais baixa com um padrão xadrez de amarelo e preto.

O que imediatamente, inevitavelmente chama a atenção quando você bate o olho em A Corte do Ar é a capa. Eu, em particular, nunca vi capa mais linda do que essa. Superelegante e cheia de ilustrações maravilhosas, ela ostenta uma criatividade de tirar o fôlego. É daqueles tipos de capa que perdem totalmente o sentido e sofrem de imenso desperdício quando são vistas em um e-reader. Eu não tenho nada contra e-books, mas a beleza física de A Corte do Ar “nunca será” em um dispositivo eletrônico.

Com relação à história, trata-se de algo grandioso, de um mundo criado especialmente para o livro, bastante interessante, mas ao mesmo tempo complexo e amplo demais. Há política, guerra, estratégias, há os habitantes desse mundo envolvidos em diversas disputas e há a dificuldade de saber quem luta por qual lado, se é que há apenas 2 lados nessas lutas. Também há personagens em excesso, criaturas, povos e culturas suficientes para fazer o leitor se perder. E o problema não é apenas a quantidade, mas também a forma como eles aparecem. Muitos personagens que têm papéis cruciais no enredo surgem do nada, começam a definir rumos, mas você não sabe nada sobre eles. Não sabe sobre seu passado, não conhece muito bem suas motivações e não entende direito as suas decisões. Da mesma forma, o histórico, o pano de fundo do mundo de A Corte do Ar não é apresentado de forma clara. Os fatos se desenrolam sem um background, sem explicar por que acontecem.
A impressão que me deu foi que o enredo não possui uma estrutura muito bem interligada. A história é intensa, mas senti falta de uma linha que costurasse tudo de forma firme e que fizesse cada cena isolada ter mais sentido dentro de um todo.

Sempre que esse tipo de sensação acontece comigo com a leitura de um livro, sinceramente, eu fico em dúvida se fui eu que não entendi a sua proposta. É diferente de quando você lê uma historinha merrequenta e fraca, e tem plena consciência da pouca qualidade que ela tem. No entanto, com relação a A Corte do Ar, eu sei que se trata de um livro importante, principalmente no gênero steampunk. Eu sei que é uma obra de grande porte e que merece respeito. No entanto, provavelmente eu não consegui entrar em sintonia com o livro e aproveitá-lo da maneira devida.
Para quem estiver lendo este meu post, eu sugiro que não o leve em consideração para decidir se vai ler o livro ou não. Procure outras resenhas, principalmente as de quem gostou da história, para ver se realmente te atrai. Apesar de eu não ter me dado bem com a leitura de A Corte do Ar, acho que a história vale muito a pena.
Uma dica: leia o trecho em pdf. Ele tem 137 páginas! O link está logo abaixo.

Leia um trecho: aqui

[resenha] O Fim da Eternidade

9 de outubro de 2014 - quinta-feira - 10:13h   ¤   Categoria(s): Ficção Científica, Literatura estrangeira, Resenhas

O Fim da EternidadeTítulo: O Fim da Eternidade
Título original: The end of eterninty
Autor: Isaac Asimov
País: EUA
Ano: 1955
Editora: Aleph
Páginas: 255
Sinopse: Andrew Harlan é um Eterno – membro de uma organização que monitora e controla o Tempo. Um Técnico que lida diariamente com o destino de bilhões de pessoas no mundo inteiro – sua função é iniciar Mudanças de Realidade, ou seja, alterar o curso da História. Condicionado por um treinamento rigoroso e por uma rígida autodisciplina, Harlan aprendeu a deixar as emoções de lado na hora de fazer seu trabalho. Tudo vai bem até o dia em que ele conhece a atraente Noÿs Lambent, uma mulher que abala suas estruturas e faz com que passe a rever seus conceitos, em nome de algo tão antigo quanto o próprio tempo – o amor. Agora ele terá de arriscar tudo – não apenas seu emprego, mas sua vida, a de Noÿs e até mesmo o curso da História.
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Ele havia alterado a Realidade. Havia adulterado um mecanismo por uns poucos minutos do Século 223 e, como resultado, um jovem não conseguiu assistir a uma palestra sobre mecânica à qual deveria ter comparecido. Nunca estudou engenharia solar e, em consequência, um invento perfeitamente simples teve seu desenvolvimento adiado por dez anos cruciais. Uma guerra no 224, espantosamente, sumiu da Realidade como resultado.

A sensação que corria pelo meu corpo quando terminei de ler este livro foi de poesia. Sim, poesia corria em mim. Entrou pelos meus olhos, navegou em minha corrente sanguínea e evaporou pelos meus poros, causando arrepios.
Nunca imaginei que ficção científica pudesse ser assim. No entanto, esta era a segunda história que eu lia de Isaac Asimov. A primeira tinha sido a trilogia da Fundação, para a qual jamais terei confiança suficiente que me dê coragem de escrever uma resenha. A Fundação é muito mais do que as viagens interplanetárias e império que ocupa a galáxia inteira.
Da mesma forma, O Fim da Eternidade é muito mais do que a sinopse tenta mostrar. Parece com uma simples história de viagem no tempo, incrementada com a tensão causada por um coração apaixonado prestes a causar um possível desastre. Mas não é.
Ou é.
É tudo isso somado, só que elevado a uma outra dimensão de significado. Ou, como numa frase que eu adoro falar: é um outro patamar de existência.

É um pouco inútil eu ficar falando aqui do enredo do livro. Em O Fim da Eternidade, as viagens no tempo são, sim, usadas para causar modificações, tanto no passado quanto no futuro. (Estou dizendo isso porque, em diversas histórias desse tema, uma das dificuldades que viajantes do tempo têm é justamente a incapacidade de mudar os fatos.) Mas o livro não é só sobre isso. O enredo vai te entreter, te fazer sonhar e questionar e te guiar. Mas as últimas páginas é que te dirão sobre o que o livro é. E, nesse momento, você vai sentir o seu entendimento se ampliar. Sabe aquilo que eu falei agora há pouco sobre dimensão e patamar? Então.

Talvez eu esteja exagerando. Talvez eu ainda seja uma novata em termos de Isaac Asimov e esteja impressionada. Talvez eu pareça aquela adolescente de 13 anos em seu primeiro vou-amá-lo-para-sempre. Mas se você também é novato em Isaac Asimov, eu gostaria que você sentisse o que eu senti. Desejo muito que, ao fim do livro, você olhe pro infinito – porque simplesmente você não consegue focar em nada por um tempo – e faça a cara de encantamento que eu fiz. Foi uma pena eu não ter uma câmera à mão para registrar o meu rosto nesse instante e guardar a imagem para sempre.
O Fim da Eternidade

Leia um trecho: aqui

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[resenha] O Doador de Memórias

11 de setembro de 2014 - quinta-feira - 19:59h   ¤   Categoria(s): Ficção Científica, Literatura estrangeira, Resenhas

Título: O Doador de Memórias
Título original: The giver
Autor: Lois Lowry
País: EUA
Ano: 1993
Editora: Arqueiro
Páginas: 190
Sinopse: Os habitantes de uma pequena comunidade, satisfeitos com a vida ordenada, pacata e estável que levam, conhecem apenas o presente – o passado e todas as lembranças do antigo mundo lhes foram apagados da mente. Um único indivíduo é encarregado de ser o guardião dessas memórias, com o objetivo de proteger o povo do sofrimento e, ao mesmo tempo, ter a sabedoria necessária para orientar os dirigentes da sociedade em momentos difíceis. Aos 12 anos, idade em que toda criança é designada à profissão que irá seguir, Jonas recebe a honra de se tornar o próximo guardião. Ele é avisado de que precisará passar por um treinamento difícil, que exigirá coragem, disciplina e muita força, mas não faz ideia de que seu mundo nunca mais será o mesmo. Orientado pelo velho Doador, Jonas descobre pouco a pouco o universo extraordinário que lhe fora roubado. Como uma névoa que vai se dissipando, a terrível realidade por trás daquela utopia começa a se revelar.
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– Não nos atrevemos a deixar as pessoas fazerem escolhas próprias.
– Não é seguro? – sugeriu o Doador.
– Decididamente, não é – afirmou Jonas, cheio de convicção. – Imagine se pudessem escolher seu cônjuge? E escolhessem errado? – E prosseguiu, quase rindo da ideia absurda: – Ou se pudessem escolher o próprio cargo?
– Seria assustador, não é? – disse o Doador.
Jonas deu uma risadinha.
– Muito assustador. Nem consigo imaginar. Temos realmente de proteger as pessoas das escolhas erradas.

O mundo em que Jonas vive é perfeito. Em sua comunidade, as pessoas são educadas e gentis, expressam-se de maneira precisa, obedecem tranquilamente às regras e são muito felizes. O aprendizado das crianças nas escolas é efetivo, os casamentos são harmoniosos e as profissões dos adultos são adequadas e satisfatórias a cada um deles. Qualquer tipo de incômodo ou conflito é inexistente: fome, guerra, frio, calor excessivo, sujeira são coisas que não fazem parte do seu dia a dia.
Jonas está prestes a completar 12 anos. Nessa idade, as crianças recebem as profissões que irão exercer para o resto de suas vidas. Chamadas de Atribuições, as escolhas são feitas pelo Comitê de Anciãos, com base em observações realizadas ao longo dos anos anteriores, quando as crianças são designadas a realizar trabalhos voluntários dos tipos que mais lhes agradam. No entanto, Jonas é escolhido para exercer uma Atribuição única: o de Recebedor de Memórias. A partir de então, ele deverá passar por um treinamento com o atual dono da Atribuição, o Doador de Memórias. É nesse treinamento que Jonas irá entender por que o mundo em que ele vive é tão perfeito e qual a triste verdade por trás de tudo isso.

Devo confessar que fiquei absolutamente encantada com os conceitos sociais e culturais presentes neste livro! O funcionamento da comunidade retratada em O doador de memórias é o sonho de qualquer coração frustrado com a bagunça que é o nosso país. Tudo é tão certinho, tão lógico, tão simples.
Entretanto, durante o treinamento de Jonas, já como o novo Recebedor de Memórias, o leitor é exposto ao choque quando percebe o preço pago para se viver na perfeição. O questionamento sobre o valor das nossas lembranças, tanto em termos positivos quanto negativos, e sobre a importância da capacidade – e direito – de escolher é a reflexão levantada ao longo da leitura.
O enredo se desenrola em um ritmo ótimo, bem esclarecido, até o ponto de decisão causado pelo conflito referente a toda a verdade por trás desse mundo perfeito. A partir daí, acaba tropeçando um pouco na sua velocidade, dando certa impressão de descontrole. E é nesse ritmo atabalhoado que o livro termina, de repente.

Apesar do final um pouco precipitado, eu gostei muito da história como um todo. Acho que distopias nos atraem tanto justamente por nos apresentar um mundo onde a forma de pensar é totalmente diferente do que vivemos hoje, mesmo tendo culturas tão diferentes ao redor do planeta. Nesse aspecto, O doador de memórias tem a capacidade de incomodar o leitor e de não deixá-lo simplesmente consumindo as páginas de forma passiva.

Hoje estreia o filme baseado neste livro. Pelo que vi do trailer, a história parece avançar bastante em relação ao primeiro livro, além de ter alguns elementos diferentes. O Jonas do filme é bem mais velho. A personagem interpretada pela Taylor Swift mal aparece no livro, apesar de passar a impressão de ter um papel importante pelo que foi mostrado nos trailers. De qualquer forma, acredito que o filme será muito bom, mais como entretenimento e provocação à reflexão do que como adaptação de obra literária.

Leia um trecho: aqui (27 páginas de degustação)

[resenha] Laranja Mecânica

13 de julho de 2014 - domingo - 19:30h   ¤   Categoria(s): Ficção Científica, Literatura estrangeira, Resenhas

Laranja MecânicaTítulo: Laranja Mecânica
Título original: A clockwork orange
Autor: Anthony Burgess
País: Inglaterra
Ano: 1962
Editora: Aleph
Páginas: 199
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O vekio começou a fazer uma espécie de shons abafados – uuf uaf uof – então Georgie soltou os gubers dele e simplesmente deixou que ele levasse uma na rot sem dentes com seu punho cheio de anéis. Isso fez o vekio gemer muito na hora, e foi aí que brotou o sangue, meus irmãos, muito lindo.

Já fazia muito, muuuuito, tempo que eu queria ler esse livro, mas a minha super fila de livros não lidos sempre vinha atrapalhando. Hoje eu posso me considerar uma leitora mais completa, já que eu fechei o trio 1984, Admirável Mundo Novo e Laranja Mecânica.

A história se passa em um futuro próximo e é contada por Alex, um adolescente que, juntamente com outros 3 amigos, tem o costume de roubar e agredir pessoas nas ruas ou em suas casas por simples diversão. A ultraviolência, comum nessa sociedade, gera uma contrapartida por parte do governo que, por meio da tecnologia e da manipulação psicológica, consegue suprimir qualquer traço desse tipo de comportamento. O tópico abordado passa a se tornar, então, o livre arbítrio. O direito de escolha do ser humano e os limites da interferência das autoridades são questionados pelo protagonista Alex.

Além do tema central em si, outro aspecto muito citado quando se fala do livro Laranja Mecânica é a presença da gíria nadsat, palavra que significa “adolescente”. A intenção do autor, ao inventar essas gírias e utilizá-las no texto, era causar estranheza ao leitor e fazer com que ele se sentisse deslocado, da mesma forma que um adulto de 30~40 anos se sentiria ao presenciar a conversa de um grupo adolescente. Um glossário foi criado para a edição americana, o que não existia na edição original, inglesa. Eu preferi ler o livro sem consultar esse glossário, seguindo, justamente, a proposta do autor, e é o que eu recomendaria a todos. Não há tanta dificuldade assim em deduzir o significado das palavras, já que o próprio contexto e as ocorrências repetidas ajudam bastante. Veja a citação acima, em cinza, para ter uma ideia de como as gírias aparecem no texto.

Uma das coisas comuns ao se discutir histórias de ficção científica ou, em específico, distopias antigas é avaliar o quanto o tema principal ainda é atual ou acabou se tornando realidade. Ao pesquisar um pouco sobre esse livro, li por aí, na internet, que Laranja Mecânica chocou um pouco os leitores na época em que foi publicado. Entretanto, o que me chocou mesmo foi o fato de eu, leitora no ano de 2014, não ter ficado tão chocada assim com a ultraviolência narrada no livro. O que está acontecendo com a nossa sociedade, que acharia perfeitamente “comum” um grupo de 4 adolescentes espancar e roubar um professor no meio da rua, à noite?

Eu não me recordo se já escrevi isso em alguma outra resenha, mas as minhas histórias de ficção científica preferidas são aquelas que expõem questões mais filosóficas ou comportamentais, e não apenas a tecnologia futurística pura. Admirável Mundo Novo, Eu, Robô e o filme Inteligência Artificial (A.I.) são bons exemplos. É provavelmente por esse motivo que Laranja Mecânica, sendo um livro de tão poucas páginas, ganhou importância de tamanha proporção.

Leiam. Simplesmente leiam.
Laranja Mecânica

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