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[resenha] O Doador de Memórias

11 de setembro de 2014 - quinta-feira - 19:59h   ¤   Categoria(s): Ficção Científica, Literatura estrangeira, Resenhas

Título: O Doador de Memórias
Título original: The giver
Autor: Lois Lowry
País: EUA
Ano: 1993
Editora: Arqueiro
Páginas: 190
Sinopse: Os habitantes de uma pequena comunidade, satisfeitos com a vida ordenada, pacata e estável que levam, conhecem apenas o presente – o passado e todas as lembranças do antigo mundo lhes foram apagados da mente. Um único indivíduo é encarregado de ser o guardião dessas memórias, com o objetivo de proteger o povo do sofrimento e, ao mesmo tempo, ter a sabedoria necessária para orientar os dirigentes da sociedade em momentos difíceis. Aos 12 anos, idade em que toda criança é designada à profissão que irá seguir, Jonas recebe a honra de se tornar o próximo guardião. Ele é avisado de que precisará passar por um treinamento difícil, que exigirá coragem, disciplina e muita força, mas não faz ideia de que seu mundo nunca mais será o mesmo. Orientado pelo velho Doador, Jonas descobre pouco a pouco o universo extraordinário que lhe fora roubado. Como uma névoa que vai se dissipando, a terrível realidade por trás daquela utopia começa a se revelar.
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Avaliação:

– Não nos atrevemos a deixar as pessoas fazerem escolhas próprias.
– Não é seguro? – sugeriu o Doador.
– Decididamente, não é – afirmou Jonas, cheio de convicção. – Imagine se pudessem escolher seu cônjuge? E escolhessem errado? – E prosseguiu, quase rindo da ideia absurda: – Ou se pudessem escolher o próprio cargo?
– Seria assustador, não é? – disse o Doador.
Jonas deu uma risadinha.
– Muito assustador. Nem consigo imaginar. Temos realmente de proteger as pessoas das escolhas erradas.

O mundo em que Jonas vive é perfeito. Em sua comunidade, as pessoas são educadas e gentis, expressam-se de maneira precisa, obedecem tranquilamente às regras e são muito felizes. O aprendizado das crianças nas escolas é efetivo, os casamentos são harmoniosos e as profissões dos adultos são adequadas e satisfatórias a cada um deles. Qualquer tipo de incômodo ou conflito é inexistente: fome, guerra, frio, calor excessivo, sujeira são coisas que não fazem parte do seu dia a dia.
Jonas está prestes a completar 12 anos. Nessa idade, as crianças recebem as profissões que irão exercer para o resto de suas vidas. Chamadas de Atribuições, as escolhas são feitas pelo Comitê de Anciãos, com base em observações realizadas ao longo dos anos anteriores, quando as crianças são designadas a realizar trabalhos voluntários dos tipos que mais lhes agradam. No entanto, Jonas é escolhido para exercer uma Atribuição única: o de Recebedor de Memórias. A partir de então, ele deverá passar por um treinamento com o atual dono da Atribuição, o Doador de Memórias. É nesse treinamento que Jonas irá entender por que o mundo em que ele vive é tão perfeito e qual a triste verdade por trás de tudo isso.

Devo confessar que fiquei absolutamente encantada com os conceitos sociais e culturais presentes neste livro! O funcionamento da comunidade retratada em O doador de memórias é o sonho de qualquer coração frustrado com a bagunça que é o nosso país. Tudo é tão certinho, tão lógico, tão simples.
Entretanto, durante o treinamento de Jonas, já como o novo Recebedor de Memórias, o leitor é exposto ao choque quando percebe o preço pago para se viver na perfeição. O questionamento sobre o valor das nossas lembranças, tanto em termos positivos quanto negativos, e sobre a importância da capacidade – e direito – de escolher é a reflexão levantada ao longo da leitura.
O enredo se desenrola em um ritmo ótimo, bem esclarecido, até o ponto de decisão causado pelo conflito referente a toda a verdade por trás desse mundo perfeito. A partir daí, acaba tropeçando um pouco na sua velocidade, dando certa impressão de descontrole. E é nesse ritmo atabalhoado que o livro termina, de repente.

Apesar do final um pouco precipitado, eu gostei muito da história como um todo. Acho que distopias nos atraem tanto justamente por nos apresentar um mundo onde a forma de pensar é totalmente diferente do que vivemos hoje, mesmo tendo culturas tão diferentes ao redor do planeta. Nesse aspecto, O doador de memórias tem a capacidade de incomodar o leitor e de não deixá-lo simplesmente consumindo as páginas de forma passiva.

Hoje estreia o filme baseado neste livro. Pelo que vi do trailer, a história parece avançar bastante em relação ao primeiro livro, além de ter alguns elementos diferentes. O Jonas do filme é bem mais velho. A personagem interpretada pela Taylor Swift mal aparece no livro, apesar de passar a impressão de ter um papel importante pelo que foi mostrado nos trailers. De qualquer forma, acredito que o filme será muito bom, mais como entretenimento e provocação à reflexão do que como adaptação de obra literária.

Leia um trecho: aqui (27 páginas de degustação)

[resenha] Feios

31 de janeiro de 2013 - quinta-feira - 20:24h   ¤   Categoria(s): Desafios, Ficção Científica, Literatura estrangeira, Resenhas

FeiosTítulo: Feios
Título original: Uglies
Autor: Scott Westerfeld
País: EUA
Ano: 2005
Editora: Galera Record
Páginas: 415
Sinopse: Em uma sociedade futurística, todos os adolescentes esperam ansiosos o aniversário de 16 anos, pois então serão submetidos a uma inacreditável cirurgia plástica, que corrigirá todas as suas imperfeições físicas, transformando-os em perfeitos. Tally,porém, acaba se envolvendo em uma conspiração e descobrirá que, por trás de tanta perfeição, se esconde um terrível segredo.
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Tally viu um casal de perfeitos passar e sentiu algo que costumava sentir ao observar um rosto perfeito. [...] Havia algo mágico naqueles olhos grandes e perfeitos, algo que praticamente obrigava as pessoas a prestar atenção ao que diziam, a protegê-los dos perigos, a fazê-los felizes. Eles eram tão… perfeitos.

Avaliação:
O livro se passa numa época muito depois da queda dos Enferrujados, onde reciclagem e sustentabilidade são fenômenos naturais. A partir dos 16 anos, todos os seres humanos são submetidos a uma cirurgia complexa onde deixam de ser Feios e tornam-se Perfeitos. Olhos muito separados ou pequenos, pele com espinhas, gordura corporal de mais ou de menos e altura “inadequada” são somente alguns exemplos de imperfeições a ser corrigidas e todas as pessoas são enquadradas dentro do padrão de beleza. Tally Youngblood está prestes a completar 16 anos e não vê a hora de poder ficar perfeita, deixar Vila Feia, ir morar em Nova Perfeição e se divertir o quanto conseguir, pois é apenas isso que os jovens perfeitos devem fazer.
Entretanto, neste meio tempo, Tally conhece Shay, uma garota decidida a não fazer a operação. Ela conta à protagonista sobre a Fumaça, uma cidade onde moram as pessoas que optaram por não se tornar Perfeitos. Nos dias que antecedem a cirurgia de Tally, Shay foge de Vila Feia para encontrar a Fumaça.
O segredo por trás deste mundo de Perfeitos é o que Tally acabará por descobrir.

Achei bastante intrigante o conceito-base do livro, sobre a operação que padroniza a beleza das pessoas. A ideia que a sustenta faz bastante sentido e usa como justificativa justamente os valores e atitudes que encontramos no mundo atual. Mas o livro também apresenta os poréns desta nova forma de pensar através dos rebeldes que se recusam a se tornar Perfeitos e a fazer parte desta sociedade onde tudo parece funcionar milimetricamente. Um outro ponto que me causou bastante reflexão, mas que não foi muito exposto, foi a questão dos Enferrujados. Pelas descrições e críticas, com certeza se referem à nossa sociedade de hoje. Com nossa forma de exploração do único planeta que temos para viver, estaremos caminhando para a citada queda?
O enredo em si também prende bastante, o desenrolar da história consegue te fazer querer voar por cima do texto.

Apesar de eu ser “inflacionada” em termos de livros de distopia (pois os primeiros que eu li foram Admirável Mundo Novo e 1984 – e eu vou sempre falar disso a cada resenha de um livro do gênero), gostei bastante de Feios e estou me segurando para não ler tão já a continuação, que tenho aqui em casa.
Feios
Esta resenha faz parte da meta de janeiro do Projeto Variedade Literária. Se você leu algum livro do gênero correspondente ao mês, deixe o nome do livro nos comentários. Se fez resenha, coloque o link para eu poder ler. =)

[resenha] Starters

30 de agosto de 2012 - quinta-feira - 12:35h   ¤   Categoria(s): Ficção Científica, Infantojuvenil, Literatura estrangeira, Resenhas

StartersTítulo: Starters
Título original: Starters
Autor: Lissa Price
País: EUA
Ano: 2012
Editora: Novo Conceito
Páginas: 367
Sinopse: Seu mundo mudou para sempre. Callie perdeu os pais quando a Guerra dos Esporos varreu todas as pessoas entre 20 e 60 anos. Ela e seu irmão mais novo, Tyler, estão se virando, vivendo como desabrigados com seu amigo Michael e lutando contra rebeldes que os matariam por uma bolacha. A única esperança de Callie é Prime Destinations, um lugar perturbado em Beverly Hills que abriga uma misteriosa figura conhecida como O Velho. Ele aluga adolescentes para alugar seus corpos aos Enders – idosos que desejam ser jovens novamente. Callie, desesperada pelo dinheiro que os ajudará a sobreviver, concorda em ser uma doadora. Mas o neurochip que colocam em Callie está com defeito e ela acorda na vida de sua inquilina, morando em uma mansão, dirigindo seus carros e saindo com o neto de um senador. Parece quase um conto de fadas, até Callie descobrir que sua locatária pretende fazer mais do que se divertir – e que os planos de Prime Destinations são tão diabólicos que Callie nunca podia ter imaginado.
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– Quer dizer que ela visualiza a si mesma como se fosse eu e, se quiser alguma coisa, pensa dessa maneira e minha mão pega o que ela quer?
– Exatamente como se ela estivesse em seu corpo. Ela usa a mente para caminhar para fora daqui em seu corpo e consegue ser jovem novamente. – Ele apoiou o cotovelo sobre a outra mão. – Durante algum tempo.
– Mas como…?
– Ele apontou para o outro lado da tela.
– Deste lado, em outra sala, a doadora – no caso, você – está conectada ao computador por uma ICC sem fio.
– Sem fio?
– Nós inserimos um pequeno neurochip na parte de trás da sua cabeça. Você não vai sentir nada. É totalmente indolor. O neurochip permite que você esteja conectada ao computador a qualquer momento. Nós conectamos suas ondas cerebrais ao computador e ele conecta vocês duas.

Avaliação:
A Guerra dos Esporos matou todas as pessoas entre 20 e 60 anos de idade. Callie, de 16, e seu irmão Tyler, de 7 anos, ficaram órfãos e não possuem nenhum parente que possa cuidar deles. Tyler está doente, com algum problema pulmonar. Se não for incurável, o tratamento certamente custa muito dinheiro, que Callie está longe de ter. Os menores de 19 anos não podem trabalhar, mas é melhor viver nas ruas – ou melhor, dentro dos prédios abandonados – do que ser pego pelos Inspetores e ir parar em uma Instituição.
Até que Callie ouve falar da Prime Destinations, uma empresa que aluga corpos de Starters para os Enders que desejam ser jovens novamente, ainda que por um breve período, e pagam uma fortuna por isso. Vendo nesta oportunidade a solução para salvar seu irmão, Callie decide tornar-se uma doadora. Segundo o contrato de serviço, Callie receberá seu pagamento somente após o terceiro período de doação.
Entretanto, é justamente durante este seu terceiro aluguel que Callie “acorda” em seu próprio corpo, quando na verdade deveria permanecer inconsciente enquanto sua inquilina curte sua temporária juventude.

A história de Starters é muito original e o enredo é muito bem construído. Gostei muito de perceber como os detalhes são bem colocados ao longo da trama para teorizar e explicar o conceito principal do livro, que é o aluguel de corpos.
O ritmo com que a história se desenvolve é sem atropelos, com os fatos e acontecimentos bem amarrados, trazidos no momento certo, expondo surpresas e reviravoltas e finalizando de modo bastante satisfatório.
Outra coisa que me chamou bastante atenção é a questão dos valores humanos que giram em torno do eixo principal da história. Por que fingir ser jovem novamente? Qual a sensação de voltar a ser idoso no término do aluguel? Qual a importância da vida versus a importância do corpo de um jovem? Já que a tecnologia consegue prolongar a vida das pessoas até os 200 anos de idade, como é ser um idoso durante 70% da sua vida? Muitas dessas questões são sugeridas, mas nem sempre respondidas.

Entretanto, um problema que todo livro sobre distopia vai ter comigo é que o meu preferido – topo da lista, absoluto entre todos os gêneros que leio – é o célebre Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Por mais covardia que seja, é impossível para mim evitar comparações.
Como eu disse acima, tudo que rodeia o conceito do aluguel de corpos é muito bem descrito e estruturado, mas senti falta de um “mundo” maior ao redor da história de Callie. Os detalhes da Guerra são muito breves, os fragmentos de relatos de como a protagonista perdeu seus pais não chegam a envolver ou emocionar.
Ou talvez, quem sabe, este livro seja apenas uma apresentação parcial de como a vida de uma adolescente órfã ficou após a Guerra. Se eu fosse a autora, soltaria um segundo livro intitulado “A Guerra dos Esporos – Como o Mundo se Dividiu em Starters e Enders” e já me prepararia para uma trilogia-de-4-livros. Está me ouvindo (lendo), Lissa Price? =)
Editado às 19:36h: Ó que tonta, eu! =P Vi agorinha que já existe uma continuação de Starters, não lançado no Brasil ainda, e chama-se “Enders”. Não vou modificar o texto acima. A sugestão, então, fica pro 3º livro, hehehe.

De qualquer forma, é uma história ótima, que cumpre com muita competência o seu papel de entreter o leitor e levantar algumas questões morais, ainda que de modo leve.

Com relação ao livro físico em si, não há muito o que comentar sobre a capa. É simplesmente linda e elegante, mostrando um “futurismo” atualizado, sem parecer clichê.
Starters

Para aqueles que ainda não leram o livro e estão a fim de ler um breve teaser, o blog da Editora Novo Conceito disponibilizou gratuitamente em formato .epub o conto “Retrato de uma Starter – Uma Descoberta”, que mostra um curtíssimo período imediatamente antes do ponto onde o livro começa. Para quem quiser baixar, o link é esse. Para quem for ler no computador, é necessário um programa para rodar o formato .epub, e a sugestão é o Calibre, baixável aqui.